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Blip
Porra, me perdoem por tantos posts no mesmo fim de semana. Mas, durante os malditos dias úteis, fica meio foguete postar coisas aqui. Aí vem esse rebosteio todo e tal. Mas bem, é o seguinte. Como dizem as moças do telemarketing, quero disponibiizar meu Blip FM pra vocês ouvirem a minha porção DJ. É só dar um digitão em www.blip.fm/castelorama Vou colocando, aos poucos, as favoritas. E sugiro que vossas excelências bedelianas façam o mesmo. A começar do Sarrumor, esse Dj orgânico. E que dividamos nossas idiossincrasias musicais todas aqui.
Escrito por C. Castelo às 20h36
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O dia em que a mulher do Waldick foi lá em casa

No alvorecer da minha infância, assevera dona Marirá - genitora deste plumitivo - um Puma GTE zerinho estacionou diante de nossa mansarda no bairro do Sumarezinho, em São Paulo.
Acompanhada de um amigo da família, o finado Dagildo (nome dado ao mancebo pela contração do “Da” de CandiDA e o “Gildo” de LeoviGILDO) adentrou em nosso lar ninguém menos que a “mulher do Waldick Soriano”.
Eram comuns tais visitas-relâmpago na pequena comunidade piauiense-maranhense de Sampa.
Podia ser desde de um primo doente do peito até uma personalidade do mundo do forró. Desde que a razão fosse uma troca de favores ou uma "consideração" a alguém.
Quando Dagildo anunciou a visita já subindo as escadas do sobrado, houve um certo estremecimento doméstico.
Entretanto, como era comum em minha mãe, com dois ou três movimentos rápidos ela deixava uma sala bagunçada pronta para receber a Rainha Elizabeth II em noite de distribuição de honrarias aos lordes.
E assim foi.
Puxando um vaso pra cá, centralizando uma cadeira pra lá, só restou à primeira-dama do brega alardear:
- Meu Deus, que casa mais ajeitadinha!
Num cantinho da sala impecável, brincando com meu helicóptero da USAF (que fazia “dungo-dungo-dungo” com as hélices e abria a portinha) fiquei só reparando na cena.
Dona Marirá não se recorda mais do nome da dita, porém lembra-se direitinhamente que a senhora estava desconsolada com o marido canastrão.
Homem delicado e sensível, Dagildo era sabedor das manhas e artimanhas de mamã na arte de manter um casamento (papai não era definitivamente flor que se cheirasse naqueles tempos, mas a união mantinha-se intacta). Por isso, levou “a mulher do Waldick” para tomar uns conselhos.
Feito uma psicanalista lavada e escorrida em Freud, mamãe quis saber o que levava a companheira de tão famoso astro a andar tão tristonha.
- Eu amo aquele danado demais. Demais! Mas o Waldick só pensa no público dele, dona. É só público, público, público – disse ela aos prantos, para meu estremecimento infantil.
Atenta na queixa, dona Marirá era só ouvidos. A mulher do homem continuou:
- A prova disso é ele, em todo santo show, jogar aquele chapelão pro povo. Eu me zango demais com aquilo. Custa uma fortuna e ele atira como se fosse confete!
Saindo da audição para a fala propriamente dita, minha mãe teria declarado mais ou menos o seguinte àquela ocasião:
- Mas o problema de seu casamento com o Waldick Soriano é o chapéu que ele joga no povo, minha filha?
- É!
- E se ele se jogasse, ele mesmo lá do palco, pra cima das qüengas? Não ia ser pior?
- Aí era a morte…
- Pois então? Enquanto é o chapéu está uma beleza, não está?
Limpando uma lágrima, a consorte de nosso mestre do kitsch musical deu toda razão a dona Marirá.
E, depois de comer um doce de casca de limão azedo, entrou na companhia de Dagildo em seu Puma GTE e voltou a seus afazeres de mulher de latin-lover cafona.
O casamento?
Bem, segundo Dona Marirá, esse parece ter durado por muitos e muitos anos.
Mesmo com o velho Soriano teimando em arremessar seus chapelões por centenas de platéias interiorzão afora.
Escrito por C. Castelo às 14h38
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Ursulino, o touro
Mais que urso, em termos de saúde, Ursulino era um touro.
Até os 82 anos nunca tivera um defluxo. E o primeiro resfriado que lhe ocorreu curou-o num só dia. Tomando banhos frios de cachoeira e chá com rum - duas garrafas inteiras do cubano.
Era assim com ele. Queria mostrar quem mandava.
Estava no comando de sua robusta saudabilidade e espezinhava os que se acovardavam, indo às consultas periódicas, fazendo ridículos exames de rotina.
“Fique longe dos homens de branco quem não quiser morrer antes da hora”, costumava filosofar bebendo vinho barato e mordendo um gorduroso salame italiano.
Quando fez 100 anos ganhou dos parentes uma estátua no jardim. Nela aparecia em forma de Atlas. Um contra-parente, metido a artista plástico, também pintou uma tela com o mar batendo numa rocha monstruosa e a batizou de “Ursulino, portento da natureza”.
Estava claro que ele deixara de ser um senhor de terceira idade fora dos padrões para ser motivo de vaidade e orgulho da família.
Qualquer primo, vizinho ou conhecido ao ser perguntado sobre Ursulino respondia com brilho na voz: “não é mais uma pessoa, é uma fortaleza”.
E a empregada doméstica, uma senhora paraibana corcunda muito feia, limitava-se a ficar repetindo: “Seu Ursulino? Hum, ô véi duro na queda do cão, meu fí!”.
Pelos 109 anos, Ursulino deu um susto em seus admiradores.
Teve uma dorzinha fina no braço e uma azia forte. Os netos julgaram que ele enfartava. O mais velho levou-o, sob protesto, a um pronto-socorro próximo.
Em uma hora, dezenas de curiosos do bairro se aglomeravam na sala de espera do PS.
Todos buscando novas sobre aquele ícone da vitalidade humana.
Quando estavam num canto praticamente interrogando a enfermeira de plantão, o próprio Ursulino saiu andando lá de dentro.
Tia Noca, nervosíssima, berrou lá da porta da frente:
- Linozinho! Tu, doente? Pode uma coisa dessas?
Ele deu de ombros, com expressão enfastiada. Usando o vozeirão que lhe caraterizava explicou ironicamente:
- Acharam que era coração. Examina daqui, alfineta dali, não encontraram foi nada. Só que ninguém me perguntava o que eu achava que era…
- E o que era, homem de Deus? Diz logo!
- Na hora que me deixaram abrir a boca, eu falei pro doutorzinho lá: “moço, eu comi dobradinha com toicinho. Fui de madrugada na geladeira, meti na boca, direto da panela, com muita pimenta e farinha. Se eu puder me aquietar num vaso, soltar uns três ou quatro traques daqueles bons, saio daqui já, já”.
- E eles?
- Deixaram eu ir. Queriam me levar na cadeira de roda, mas recusei. Passei quinze minutos obrando, obrando, obrando e sai bonzinho.
- Avalie! Chega tá corado, Linozinho.
- Peidar, ô santo rémedio, minha filha! Um homem que caga todo dia sabe o que é o paraíso!
Rumaram para o bar do Tomate com o objetivo de comemorar a bem aventurança de Ursulino.
Cerveja gelada, pinga e torresmo de barriga de porca para quem se achegasse.
O velho foi o último a deixar a bodega, ali pelas quatro e meia. Isso porque ficou de olho comprido para uma mocinha que a sobrinha trouxera da faculdade.
Queria porque queria cantar para a rapariga no velho violão Del Vecchio de casa.
Conseguiu. E o que Ursulino, o que diariamente ridicularizava a Morte, não conseguiria?
A cantoria acabou às sete da matina, quando o padeiro largou leite e ovos na soleira da porta.
Ursulino pediu omelete de bacon à empregada, engoliu-o com café preto e foi deitar-se.
Acordou no meio da tarde para um banho completo.
Comportava-se como criança nessas ocasiões, cantando e dançando em meio à espuma. Foi numa dessas micagens, em cima do chão molhado do box, que acabou arriando os quartos no chão e quebrando as cadeiras.
Mandarem-se todos às pressas para o hospital.
Deu-se o de sempre: cirurgia, UTI, os cambaus.
Não houve jeito desta vez. Oito longos meses depois as complicações da operação levaram Ursulino para o ladinho de Nosso Senhor.
Coroas de flores, padres, pastores, rabinos, rabecão. Centenas de pessoas comprimindo-se na câmara onde velavam-no.
Calor do norte da África.
No momento em que fechavam o caixão, uma vizinha de porta, já septuagenária, começou a berrar em completo desespero:
- Ai, meu Jesus: morreu, morreu!! Ursulino morreu!!!
Daí a irmã de tia Noca, moça velha, sem papas na língua, esbravejou mais alto do lado oposto:
- Morreu! Morreu mesmo!!! Mas foi de erro médico!!! Erro médico, viu?!
Escrito por C. Castelo às 19h04
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Horário Político Opcional
Propaganda Eleitoral de 1985
Texto: Carlos Melo (Castelo)
Vozes: Lizoel Costa e Laert Sarrumor
Ouça aqui
Propaganda Eleitoral 2002 (Coligação Tudo Junto São Paulo Tudo ao Mesmo Tempo Agora)
Texto: Laert Sarrumor
Vozes: Laert Sarrumor e Yvette Matos
Ouça aqui
Escrito por Laert Sarrumor às 20h24
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Horário Político Opcional 2
Debate
Texto: Laert Sarrumor
Vozes: Ayrton Mugnaini Jr. e Laert Sarrumor
Ouça aqui
Escrito por Laert Sarrumor às 20h23
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Horário Político Opcional 3
Discurso
Texto: José de Vasconcelos
Voz: Yvette Matos
Ouça aqui
Escrito por Laert Sarrumor às 20h21
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O Brasil das Placas
Enquanto isso, numa movimentada rua do Setor Comercial Sul em Brasília...

Escrito por Lizoel às 21h57
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Happy Day
Neste crepúsculo dominical, na ressaca do show de ontem – que, aliás, foi ótimo, está aí a Carminha, que não me deixa mentir sozinho – ainda dá tempo de registrar e festejar o aniversário do cara que, ultimamente, tem feito mais pelo Língua de Trapo – cifras, divulgação, resgate e postagem de relíquias, composições novas – do que nós próprios,
(des)integrantes do grupo.

Parabéns, Luís Couto, o oitavo Língua!
Escrito por Laert Sarrumor às 17h51
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Bomba! Bomba!

No dia 21 de agosto fez 19 anos que o roqueiro baiano Raul “Rock” Seixas foi “pro andar de cima”.
Em agosto faz também 21 anos que este Sarrumor, em companhia de Ayrton Mugnaini Jr., foi à casa do Maluco Beleza, pela segunda vez, para entrevistá-lo.
Na ocasião, para nossa grande surpresa, ele admitiu, com todas as letras, que a música Rock das Aranhas, que ele compôs em 1980, em parceria com Cláudio Roberto, é um plágio de Killer Diller, gravada em 1960 por seu autor, o norte-americano Jim Breedlove!!!
Ouça aqui a incrível confissão de Raul, na Seção Coincidência, da Rádio Matraca.
Escrito por Laert Sarrumor às 18h17
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A tristeza do humorista

O Humorista acordou aquela manhã com o rádio-relógio soando às 7h45. Era o programa jornalístico da manhã.
O âncora contava uma piada sobre um negro e um judeu. A tradicional claque de risadas veio logo em seguida.
Saiu do quarto e foi até a geladeira. Abriu a porta para pegar o vidro de água. Não sem antes olhar para o quadrinho do Garfield que a mulher pregara ali.
Após as abluções matinais de praxe, catou displicentemente o jornal que estava ao lado da caneca de café com leite ilustrada com carinhas de Groucho Marx de charuto na boca. A primeira página mencionava uma série de chamadas sobre textos de humor.
Um físico escrevia sobre a função do riso. Um poeta descrevia, de modo sarcástico, sua viagem à EuroDisney com os filhos. Uma militante feminista listava suas piadas favoritas sobre o homens chauvinistas.
Procurou a seção “Veículos” para tomar contato com assunto diverso.O anúncio de um carro coreano trazia um título com um trocadilho infame. Mais adiante, uma página dupla vendia um SUV com uma celebridade mostrando a língua para a câmera. Mais abaixo na página, o slogan: “nem Einstein faria um 4X4 melhor”.
Fechou o jornal, tomou um grande gole da caneca e levantou-se.
Do quarto, vinha o som metálico do rádio-relógio. Às 8h20 começava a sessão de entrevistas. O convidado de hoje era um dos palhaços do Cirque du Soleil.
O Humorista foi até o computador. Era dia de entregar o texto do stand-up para o produtor e não tinha achado um fecho interessante até agora.
O tema da micro-peça lhe parecia frouxo: “Odeio pessoas que odeiam”. Meia hora discorrendo sobre aquilo terminaria ficando tremendamente falso. Pior: chatíssimo.
De mais a mais, existiam no Orkut milhares de comunidades que diziam odiar algo com o objetivo de ser engraçadinho.
Só que o produtor agora estavando querendo dar uma de humorista, se metendo em seu texto, era preciso redobrar a atenção, senão perdia o trabalho.
Foi pegar mais café na pia e olhou pela janela. No cruzamento da rua de seu prédio uma empresa de promoções distribuia folhetos no semáforo, os promotores todos trajados formalmente de palhaços. Pulavam, dançavam, faziam caretinhas com as bochechas pintadas para os motoristas entediados.
Resolveu colocar o texto do stand-up num pen-drive e ir até o escritório do produtor escrever.
Era mais prático, já que o sujeito metia tanto a mão nas idéias.
De mais a mais, se ele quisesse criar as situações e as falas que criasse. Ganharia o cachê de um jeito menos indolor.
Desceu o elevador com o adolescente espinhudo do 62. Na camiseta dele havia estampado um cartum de Allan Sieber.
Na portaria, o zelador do prédio saudou o Humorista com uma piada, como fazia todo dia ao vê-lo.
- O cara foi levar os exames no médico. O doutor leu os resultados. Aí falou: “tenho uma notícia boa e uma ruim, qual conto primeiro? O cara pediu pra ele contar a boa. “Você tem 24 horas de vida”, ele disse. “Mas e a ruim, porra?”, perguntou o homem, apavorado. O médico daí falou: “tentei avisar ontem, mas não te encontrei”.
Riram alto, o eco no corredor úmido de prédio reverberou. O servente que lustrava a porta do elevador, emendou mais duas de péssimo gosto sobre o comportamento sexual dos gaúchos.
- Vinha um gaúcho atrás do outro. Corriam atrás de um boi brabo no pampa. Aí o da frente caiu com as fuças no chão, bem dentro de uma vala. Fodeu-se todo. O que vinha atrás, com aquele sotaque forte da fronteira, ficou preocupado com o tombo do parceiro e disse assim: “dô-eu, tchê?” Aí o que tinha caído falou pra ele: “dô-eu, que já tô no chão mesmo”.
Mais risadaria, mais eco no corredor. Depois, cumprimentando os dois, o Humorista saiu porta afora para uma caminhada até o escritório.
Estava um dia consideravelmente frio para um verão pleno e escancarado, mas era comum em sua cidade temperaturas inusuais em estações do ano onde não deveria acontecer aquilo. Até parecia que o meio-ambiente estava fazendo piada com as pessoas. “Olha só, gente: um calor de 37 graus no inverno, um frio de 3 graus na primavera…hahahaha”.
Como saíra desprevenido de casa, sem uma jaquetinha sequer, resolveu dar uns passos atrás, ir até a garagem e buscar o carro.
Ao dar partida, reparou que o automóvel lhe pregara uma peça. Estava com o tanque quase vazio. Teve de parar no primeiro posto, apesar do preço do combustível ali ser uma verdadeira palhaçada de tão caro, e abastecer num valor quase 20% acima do que costumava pagar.
Quando entregou a chave à frentista dizendo o mantra: “pode encher com álcool”, ouviu dela:
- Tem certeza?
Ficou por alguns segundos confuso. Nunca haviam lhe dito aquilo em tantos e tantos anos parando em postos e solicitando reabastecimento.
- Como assim, tenho certeza? Claro que eu tenho…
A garota frentista respondeu, ironicamente:
- Olha, isso que o senhor me pediu e direção não combinam…Lei seca…cadeia… E me pede pra encher com álcool? Quem avisa, amiga é…
Escancarou a boca cheia de pontes numa risada histérica, ao mesmo tempo que levava a chave até o tanque.
Na FM do carro começava a crônica política do dia. O jornalista resolveu resumir seu pensamento - ao contrário de um texto tradicional, como fazia todas as manhãs – em aforismos de humor. Do gênero “quem tem (nome de um partido politico) tem medo”. As pequenas frases em si nem eram lá muito risíveis, mas o jornalista, logo depois que lia uma delas, caia numa arrastado e histriônico sorriso.
Ao sair do posto, o Humorista trocou de estação. Sintonizou numa rádio que transmitia uma pegadinha em forma de trote telefônico. Uma pobre mulher recebia o inesperado telefonema de uma pessoa que perguntava se sua casa era de tolerância.
Em sua funda ignorância, a senhora repetia diversas vezes que a sua casa era normal, que vivia ali uma família comum, que não havia nada de intolerância lá.
Como ele, milhares de pessoas com toda certeza estavam ouvindo aquilo e rindo em seus carros.
De fato, era impossível deixar de se ligar na interminável pegadinha.
Foi escutando a toada até o escritório. Passou pelo guarda-malabarista no centro da cidade, pelos meninos e meninas vestidos de Carlitos no semáforo da avenida principal, pelo mendigo-clown da entrada da Marginal.
Depois de mais de 20 minutos de trote infame, o marido pegou o telefone e disparou meia-dúzia de palavrões em cima do locutor.
Uma claque de risos entrou ruidosamente, o casal da casa de tolerância ganhou um curso de técnicas circenses do patrocinador do programa e tudo acabou bem.
No escritório vazio, o Humorista sentou-se diante do computador.
Aproveitou a ausência do produtor para remoer idéias antigas, vasculhar trechos inóspitos de sua imaginação feérica.
Nada de relevante vinha. Nenhuma bom set-up, nenhum final surpreendente, sequer uma situação hiperbolicamente bem elaborada.
Apelou para idéias non-sense, surreais, relembrou frases lapidares de outros colegas do passado.
Por fim, tentou pensar no país, nos políticos, na Economia, nos programas de tevê.
Tudo em volta era mais engraçado do que ele.
Num desespero silencioso , baixou os olhos e chorou.
Escrito por C. Castelo às 17h56
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Testemunhais
Certos testemunhais de sites de relaciomento me fascinam mais que um bloco inteiro de perguntas de Luciana Gimenez a um travesti recém-operado de fimose. A leitura deles começou a ser de tal maneira obssessiva pra mim que passei a imaginar testemunhais ideais. Como estes aqui:
“Totonho, saiba Totonho, que um Totonho só pode ser um Totonho se não tivesse existido nenhum outro Totonho. Totonho é um só na superfície da Terra. Ai, Totonho, eu não canso de repetir: Totonho, Totonho, Totonho, eu te amo, Totonho. E se, nessa vida, não existisse Totonho, um Totonho eu inventaria, viu, Rogério César?”
“Cara sensível o Alaor. Escritor, poeta, delegado-responsável pelo setor de Disciplina e Ordem dos presídios de Espírito Santo, trata-se de um amigo pra todas as horas. Mas o que mais chama atenção no Alaor é o pioneirismo. Quando servimos no Segundo Pelotão de Infantaria Motorizada, ele deu o primeiro curso de manicure na selva já ministrado na Amazônia. Durante o dia a tropa desarmava minas, fazia exercício de tiro e, à noitinha, aprendia com ele a tirar cutícula, passar base e escolher o melhor tom de esmalte para as unhas dos recrutas. Bons tempos aqueles de caserna. Alaor, você não existe! Muita gente acha isso ótimo, eu sei, mas eu te adoro”.
“Maria de Lourdes: eu guardei dentro de mim, todos esses anos, algo muito importante pra escrever bem aqui. É um espacinho pequeno pra dizer algo que - quase durante duas décadas de ansiedade, sofrimento, medo - eu trouxe calado em mim. Maria de Lourdes, eu mal consigo teclar o computador. Meu corpo treme, minh’alma está arrebatada, não há um pêlo de meu corpo que não esteja, neste momento singular, completamente eriçado, tamanho desejo de dizer a você, minha querida, que (EXCESSO DE CARACTERES, FAVOR REDIGITAR E DAR “ENTER”)".
“O Tóti é o melhor professor da facul. Nunca vou esquecer o dia em que ele comparou Deus a um omelete de gorgonzola na aula de Metafísica II. Ou da aula em que transformou o “Montanha Mágica”, do Thomas Mann, numa equação matemática e resolveu o conflito final do livro elevando o personagem-central ao quadrado. Irado!".
“Dora…você pra mim…olha…meu Deus é tão difícil te definir. Sei lá…às vezes me vem uma idéia…uma pálida noção…do que seria…a pessoa…Dora. Talvez…o que eu…pudesse…assim…dizer de você. Ah, seja o que Deus…quiser… Vou dizer…o que…acho numa frase…e pronto. Lá vai: Dora…você…é…a pessoa mais…reticente…do mundo…”.
“Amaury: quer saber? Vai se foder que eu não sou veado”.
Escrito por C. Castelo às 19h22
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Inferência dominical pós-olímpica
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar serviço e ganhar medalha de ouro em Londres 2012.
Escrito por C. Castelo às 19h40
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A um leitor de Havana
Tenho um leitor em Havana.
Não é bem o nome dele, mas vou chamá-lo de Alberto. Apesar de ficar patente que Alberto confia nos rumos revolucionários, vai saber o que o pessoal do Raúl pode fazer a ele, não é mesmo?
Alberto me mandou este e-mail:
"Começo do modo básico: gosto muito das suas crônicas, boas demais.
Acho que você desliza no seu humor político, não sei é porque você sempre critica a galera que eu gosto...
Talvez, você não saiba, mas, foi Cuba quem adotou mais de 1000 brasileiros pobres e alguns da classe média que estudam na Ilha: Teatro, Balé, Cinema e TV, Educação Física e Medicina.
Eu estou aqui há cinco anos e meio e nunca poderia estudar Medicina no Brasil porque, meu chapa, meu pai era motorista de busão e alcoólatra e minha mãe é dona de casa e você já sabe: desde os 14 anos trampando, estudei e passei no vestibular de Filosofia da UFMG e depois recebi o convite para ir para Cuba.
Quer ver Cuba sem os óculos escuros do nosso consumismo burguês brasileiro?
Troque uma idéia com o Mylton Severiano (da Caros Amigos) ou busque a série de reportagens que ele fez sobre Cuba.
Não se ofenda, sei que este comentário acima não cabe numa página humorística e que é impossível fazer humor sem às vezes ofender alguém. Porém, se você deixa este canal aberto para diálogo, eu o utilizo para reclamar contra esta pequena injustiça contra Cuba. Da Veja, Folha e Estadão: beleza, eu até suporto porque sei quem são eles, agora, eu te considero Humorista com “h” maiúsculo, e estes sempre estiveram ao lado dos oprimidos mesmo quando gozam a cara deles.
Obs: considero sua crônica "Gente tossindo, gente espirrando", uma obra prima.
Abraços e obrigado se você teve paciência para ler tudo”.
Mui carinhosa a sua crítica, Alberto. Já fui chamado de tantas barbaridades que a sua pequena discordância é um colírio para as minhas retinas cansadas. Certa vez, uma senhora chegou a me chamar numa carta de Mainardi de barba. Ai, amarga injustiça, pois nunca me arvorei a ser um polemizador-de-revista-veja e nem barba tenho, só umas penugenzinhas pelo rosto. Mas vamos ao que interessa: cite, ao menos, dois humoristas atuantes aí da Ilha. Mas dois que tenham (tinham?) cojones pra adotar o lema: “hay gobierno, soy contra”. (Não vale Fidel como humorista, afinal todos sabemos que Ele era chamado em Cuba, à boca pequena, de El Comediante). É difícil lembrar de um, sejamos francos, Alberto. Talvez pelo fato de Cuba não adotar humoristas como faz com estes mil brasileiros que, como você, se ilustram nas universidades havanesas. Tudo bem, vocês não estão pra brincadeira, vivem nas barbas do Inimigo. Eu reconheço isso, Alberto. E também nunca paguei pau para Bush e sua Neo Roma sangüinolenta. Mas quem seria mais solidário ao oprimidos? Quem ri com eles, e por eles, ou quem nem os permite rir?
Escrito por C. Castelo às 17h46
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Gente tossindo, gente espirrando
Foram 25 longos anos de poluição nos níveis máximos. Nuvens plúmbeas faziam negras revoadas pelo planeta semimorto. As ruas pareciam o palco de um show do U2 - só fumaça. Os rios tinham mais espuma que um copo de Malzebier quente. A impressão que se tinha, ao andar numa calçada, era de se estar numa sauna finlandesa em que, por distração, fora colocado no vaporizador excremento, em lugar de essência de eucalipto.
No principio as pessoas não se adaptaram ao efeito estufa. Para ser mais estatístico, morreu 95% da população mundial. E os 5% que restou teve de resolver alguns problemas, além de pagar o condomínio e achar uma vaga na Zona Azul. O primeiro deles, depois de sobreviver, foi evitar respirar. E creiam, isso não foi fácil. Porém, a própria seleção natural - e também os escafandros, adquiridos pelo pessoal da Ilha de Caras - incumbiu-se de eliminar os 4,9% dos incompetentes que não conseguiam deixar de arfar. O 0,1% de população mundial que não sucumbiu se reuniu para formar um novo país.
Depois de muita reflexão, decidiu-se que utilizariam, como forma de comunicação, a única coisa que havia em comum entre eles: a tosse. Uma tossidinha passou a significar "sim", duas tossidinhas "não". Foi o que primeiro se convencionou.
Depois veio - três tossidinhas para "sexo", e quatro tossidinhas para "não, hoje estou com dor de cabeça". Cinco e seis tossidinhas passaram a querer dizer, respectivamente "pra que time você torce?" e "isto é um assalto!".
Com o passar do tempo, o organismo dos sobreviventes virou dependente de poluição, e isso levou a uma sofisticação da nova língua baseada no defluxo. O conjunto de 38 tossidas semifusas somado a uma sutil fungada podia ter diversos significados. Frases mais complexas - do tipo " você está irritantemente behaviorista hoje, querido" - ou mesmo livros de Jacques Lacan podiam ser vertidos para o idioma da tosse. Porém, como sempre, havia aquele grupo espírito-de-porco que acreditava que os espirros representavam melhor a " fala " humana àquela época.
" A tosse é um engodo, é uma imposição autocrática. O espirro, este sim, representa nosso momento sócio-cultural-poluente".
Logo depois, fundariam um partido de oposição.
Era inegável que, apesar de ainda rudimentar como forma de comunicação, a tosse fazia o grupamento progredir. Imaginem que a primeira coisa que fizeram foi eleger uma Assembléia Nacional Constituinte! Pena que a segunda coisa que fizeram foi um golpe militar.
Dizem que a intervenção aconteceu porque a Carta Magna aprovou uma lei que criava um país independente para os que adotassem o espirro como idioma. O novo regime, todavia, não conseguiu evitar que a facção espirro ocupasse uma área resoluta ao lado do País da Tosse - fundando ali a República Provisória do Espirro - e passasse a promover diversos atos terroristas contra seus primos-irmãos.
O País da Tosse, apesar de viver sob estado de sítio, procurava se desenvolver. No campo científico, chegaram a inventar motores mais poluentes que o do jipe Toyota diesel. Eles garantiam à população os índices da bronquite asmática vitais à sobrevivência. No campo cultural, produziram um clássico da poesia épica, "Os Tossíadas", que em dez cantos narrava a saga da construção do País da Tosse. No esporte, em modalidades de aviação esportiva como as esquadrilhas da fumaça, eram imbatíveis. O pouco que se sabia da República Provisória do Espirro era que a junta de governo investia maciçamente em agricultura. Toda a população participava no processo de plantação, colheita e beneficiamento do principal produto agrícola do país: o rapé. Se havia uma tecnologia avançada, como no País da Tosse, era um mistério. Aliás, o mistério era a especialidade da República Provisória do Espirro. Tudo lá era muito enrustido.
Anos depois, entretanto, os tossistas puderam perceber que o país vizinho não estava tão atrasado assim.
Era madrugada. Ninguém notou que um avião espirrista penetrara o espaço aéreo do País da Tosse. Esta distração foi fatal para os adeptos do defluxo. Na calada da noite, o avião largou bem em cima de seu evoluído país uma bomba letal, com conteúdo ainda mais mortífero ainda: xarope de agrião. Nesse dia, eles viram o que era bom pra tosse.
Escrito por C. Castelo às 17h45
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No ritmo do esporte
Aqui está um dos “sambas do Carlão”, que tem tudo a ver com os decepcionantes dias olímpicos em que vivemos.
Amor Olímpico
de Carlos Melo (Castelo)/Celso Mojola
voz: Laert Sarrumor
violão: Sergio Gama
Ouça aqui
O nosso amor
É uma competição esportiva
Cada jogada é decisiva
E influi no cômputo geral, nosso amor é anormal
O seu beijo
Vale por uma raquetada
O seu abraço é uma espada
Que esgrima com o meu punhal
Você é louca pra abusar da violência
Só de um juiz eu sinto ausência
Para apitar os seus penais, lá nas jogadas principais
Nesse basquete
Só porque arremesso errado
Vou logo sendo o culpado
Pelo fracasso nas finais, não jogo nunca mais
Vou me queixar
A um membro da Federação
Pedindo a sua expulsão
Dos quadros residenciais
Você é sutil tal qual um halterofilista
Mais sensual que um pugilista
E eu não nasci pra ser atleta, eu não sei dar nem bicicleta
O nosso amor
Só deu score negativo
Nessa olimpíada eu perdi por W.O.
Tirei o time sem ter dó, não tenho espírito esportivo, não
Nessa olimpíada eu perdi por W.O. Tirei o time sem ter dó, não tenho espírito esportivo, não
Escrito por Laert Sarrumor às 17h22
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